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Francine Bueno Redatora Z/Quattro (Joinville)
Nunca pensei que o simples fato de fazer um bolo não fosse apenas um simples fato, mas sim uma complexa metodologia culinarística de nível super avançado. Aquele papo de farinha de trigo, açúcar, manteiga e ovos já passou do ponto faz horas. Na minha opinião, as receitas de hoje em dia deveriam vir acompanhadas de um bônus de ingredientes, dentre os quais não poderiam faltar: doses de boa vontade, desafio a gosto (quanto mais, melhor) e, o mais importante deles, quilos e mais quilos de paciência. Afinal não é qualquer quitute que tem a pertinência de levar, nada mais, nada menos que vinte e uma horas de preparo. Creio que nem bolos de casamento demorem esta eternidade para ficarem prontos e confesso que nem eu achava que essa história iria se prolongar por tanto tempo. Tudo começou com um sonho, mais precisamente o de valsa. Há semanas eu mantinha um desejo de gula sobre esse tipo de bolo e para saciá-lo resolvi ir à luta. Foi aí que criei coragem e migrei para o campo de batalha, mais conhecido como cozinha. No início tudo ia bem e eu mal esperava pelo momento que poderia começar a confeitá-lo, no entanto só foi a massa esfriar e o sol nascer para que o inimigo mostrasse as suas armas e organizasse um cerco de empecilhos contra mim: O primeiro deles foi o próprio bolo, que sofreu uma perda após o tostamento quase total dentro do forno. Confesso que na hora que vi o estrago, me senti tomada de uma ira. Porém, comecei a lembrar do meu desejo inicial e isso que me motivou a abrir a geladeira e os armários e começar tudo novamente. Dessa vez me superei, incorporei o espírito da mais potente batedeira e consegui preparar a massa em poucos minutos, mas foi aí que entrou em cena o segundo o vilão, o forno. O #@$%?* insistiu em não ligar e não houve tecnologia ou assistência técnica paterna que pudesse resolver a situação (é nessa hora que saliento o quanto é importante termos bons e próximos amigos. Considere esta proximidade nos seus dois sentidos, principalmente o literal). Dessa forma, fui obrigada a traçar um plano B: Liguei para uma grande amiga, recuei da minha área central e saí pela rua, levando somente a forma com a massa e dois panos de prato de reserva. Uma estratégia um tanto suicida, mas o tempo e o fermento já mostravam os seus efeitos sobre mim e a massa, respectivamente. Enfim, em novo forno, meu bolo parecia estar são e salvo, tanto é que não levou muito tempo para assar, porém, foi neste momento que apareceu o terceiro empecilho. Lembram-se daquele ditado “Por fora bela viola”? Pois então, meu bolo não chegava a estar tomado por colônias fungi, mas o que prejudicou o seu interior foi a minha pressa em desenformá-lo, o que resultou num quebra-cabeças de pão-de-ló. Ai ai meu San Pâtissier! para quem já havia passado mais de vinte horas tentando fazer um singelo bolinho isso já era demais. O pouco de paciência que ainda me restava fez com que, além de confeiteira, eu assumisse outras duas funções: escultora e maquiadora, tamanha foi a transformação que o doce sofreu em minha mãos. No fim das contas, entre migalhas, manchas de cobertura e pedaços de bombom, consegui concluir meu bolo, que poderia muito bem se chamar “pesadelo de valsa”, mas isso seria uma injustiça, pois o dito cujo ficou uma delícia!
— Querida, cheguei!
Ele tinha uma maneira especial de perceber os sabores da vida. Um dia amargo, um sorriso doce, o preço salgado. O paladar era o mais aguçado de seus sentidos. E por mais que o gosto dos momentos realmente se ampliasse em diversos sabores, os desse homem se traduziam em apenas dois: menta e hortelã.
Responsável pela gerência criativa de sabores de uma fábrica de cremes dentais, Renato Albério acreditava no frescor de suas idéias. A empresa era a grande detentora de um mercado bastante recente e ávido por dentes brancos e hálito puro. Um verdadeiro sucesso. Estavam literalmente na boca do povo.
Empresário renomado da década de 50, acabara de receber uma bonificação da empresa. Constantemente surpreendente, o homem rodava o mundo através de novas possibilidades. Naquela semana, havia voltado da Austrália com um novo sabor na ponta da língua: eucalipto.
E então, uma nova era se fez.Concorrentes esperneavam, gerentes comemoravam, clientes sorriam contentes. Escovar os dentes era uma experiência feliz.
Com tom satisfeito e uma ponta de orgulho, Albério reunia seus filhos todas as noites ao redor da pia, e contava emocionado sobre como era difícil escovar os dentes com carvão na sua infância. Graças ao papai, hoje tudo era melhor. O refrescante sabor dava água na boca. E além de tudo, prevenia cáries. Seu trabalho era tão importante!
Mais um dia começava bem e, por culpa de Albério, refrescante. Mal sabia ele que, assim que entrasse em sua sala, uma notícia o faria cerrar os dentes: parece que a criatividade também havia sorrido para seu concorrente. Com consultores especializados em culinária, a empresa rival inovava com uma bomba no sabor tutti-frutti.
A garotada foi ao delírio. Até adultos experimentaram. Havia até quem comesse o produto, por simples e puro prazer.
Albério ficou de boca aberta, mas não engoliu. Defendia sua empresa com unhas e dentes, e não deixaria aquilo barato. Respondeu ao ataque da melhor maneira que conhecia: inovando. Assim, viajou mais uma vez pelo mundo, à procura do sabor que revolucionaria vendas e sorrisos. Seria refrescante, surpreendente e levemente doce, porque esse é o gosto que a vingança tem.
Apesar de se empenhar bastante, suas tentativas eram ousadas demais. Acostumado a vencer pela surpresa e talvez um pouco desesperado pela situação, Albério acabou apostando em escolhas que desafiavam qualquer dentista. E, sem querer, incentivavam a concorrência a apostar em sabores parecidos, porém bucalmente viáveis.
Quando apareceu com a pimenta, responderam com canela. Quando trouxe o sabor “salada light”, responderam com Juá. O coitado vivia dando com a língua nos dentes e nada parecia funcionar.
Ao ver seu cargo caindo em ruínas, os superiores de Renato Albério resolveram dar um voto de confiança ao rapaz. Afinal, se aquela empresa chegara a fazer tanto sucesso, a culpa era dele. Dele e da hortelã, da menta e do eucalipto. Aquela seria uma chance única, a última oportunidade de Albério provar o sabor da vitória.
E assim, com muita coragem e um escapulário de sua fiel padroeira, a Fada do Dente, o rapaz abre sua pasta na sala de reuniões, semanas depois.
Sem esconder a surpresa e cumprindo a promessa do voto de confiança, os supervisores resolveram apostar. “Algodão doce”, “macarronada” e “churrasco” sem dúvida representavam algum tipo de inovação.
O sucesso foi surpreendente. Não demorou para que os exemplares sumissem das prateleiras. E fossem diretamente para pias, bocas, dentes e… almoços.
Maravilhados com a incrível semelhança dos sabores com seus respectivos “pratos”, os clientes passaram a substituir parte de suas refeições ou temperá-las com o delicioso produto. Pensavam, provavelmente, que estariam unindo o prazer de uma gostoso jantar à prevenção de cáries.
Albério sorria à toa com a glória adquirida, mas novamente não estava preparado para o que viria. Por causa do abuso com que as pessoas passaram a usar o novo “tempero” na culinária,epidemias de má digestão e intoxicação pipocaram pela cidade. Hospitais estavam lotados, famílias depredavam fábricas, homens e mulheres batiam boca com funcionários.. E foi assim, num apertar de tubos, que tudo mudou.
Desempregado, Albério sentiu o gosto amargo do fracasso. Muitos compartilharam de sua dor, decepcionados por terem que retirar aquele antigo retrato da parede de funcionário do mês. E, por muitos anos, ninguém mais o viu.
Às vezes, alguém ouve falar dele pelo boca-a-boca que corre na cidade. Alguns dizem que ele seguiu carreira como dentista, outros contam que seu fracasso foi ainda pior, quando o pegaram com a boca na botija, tentando roubar receitas. A verdade é que hoje Albério vive tranqüilo, em uma cidadezinha do interior, numa casa cercada por plantações de eucalipto e hortelã.
O gosto da modernidade às vezes não cai bem, e atropela quem quer que seja com a dor de um soco no estômago. No caso de Albério, foi bastante indigesta, mas o fez repensar no lado mais gostoso e açucarado da vida.
E hoje ele é sábio e feliz. Com seus filhos ao redor da mesa e um pequeno pedaço de carvão no gabinete.
Amor à morte
A morte, como norte
A mando da morte
Otávio Augusto era o tipo de homem ideal para o tipo de mulher carente que adorasse receber confetes. E ele tinha uma mulher que era tudo isso e muito mais. Ele era o correio sentimental em pessoa para sua Margarida. Já tinha mandado cartas quilométricas, carro de som, outdoors. Eram tantas as loucuras por amor, que um dia fez até bungee jump com uma faixa pendurada no pescoço e quase morreu enrolado nela. Mas a pior das situações estava para acontecer.
O experiente Otávio resolveu então fazer mais uma de suas demonstrações inusitadas de amor. Levantou-se de sua mesa e seguiu em direção ao escritório do financeiro. Chegou lá e como a nada simpática secretária estava ao telefone, resolveu escrever o que desejava num papel. Caneta piloto tinta azul. Ela rapidamente abriu a gaveta olhando-o com um olhar incriminador, de quem dizia: "Pega esta porcaria e suma". Ele escolheu uma dentre as várias canetas que estavam na mão dela e voltou para sua sala. Mal esperava o dia acabar para ir ao encontro de sua amada com mais esta surpresinha inusitada. Felizmente quando olhou pela décima vez o relógio de seu monitor já eram seis horas. Hora de sair e encontrar Margarida. Foi em direção ao estacionamento, destravou o alarme, entrou no carro e ajustou o espelho retrovisor ao seu rosto. Ele só precisava se arrumar para a surpresa e iria direto para a casa de Margarida. Mas pensou: "Melhor comprar umas flores para dar mais encanto à surpresa". Espelho a postos e caneta na mão. Pronto. Uma obra de arte, pensou ele. De repente, o telefone toca a música dos Mamonas Assassinas "Ser corno ou não ser". Era da empresa. Uma música para Otávio sempre lembrar o quanto admirava o chefe. Para ele era incabível uma mulher tão bela quanto a do chefe, estar com um homem baixinho, mal humorado, sacana e gordo, não fosse o dinheiro. Porém, quando pensava positivamente, Otávio até achava o chefe um cara de sorte por ter uma mulher tão bonita na sua cama todas as noites, embora ele tivesse quase a certeza de que ela, quando estava na cama com o chefe, devia pensar em qualquer outro homem. Imagina aquele mulherão pensando em mim, chegou a imaginar Otávio. Ele então atendeu ao telefone, era Odete, sua secretária, dizendo que o chefe estava chamando ele para voltar ao escritório. Era caso de vida ou morte, dizia ela. Não teve outra opção senão voltar ao escritório. Pensou em mil coisas, mas resolveu desistir de pensar e apenas responder aos questionamentos do chefe com acenos com a cabeça e "ahams". Pois se abrisse a boca, estragaria toda a surpresa de Margarida. Quando chegou na sala encontrou seu chefe e um homem de estatura mediana, terno muito alinhando, olhando as unhas de forma duvidosa. Mal entrou e já tomou um susto, o tal homem era nada menos que o novo acionista, dono dos negócios do grupo. Ele sorriu um sorriso amarelo, deu um forte aperto de mão, ficou por meia hora ouvindo as besteiras que ouvia todo dia do chefe e olhava repetidamente para seu relógio de parede. Mais um pouco Margarida estaria dormindo quando ele chegasse em casa, pensou. E quando ele achava que a conversa estava chegando ao fim, o chefe o intimou para jantar, segurando bem forte seu bíceps, como se já soubesse que Otávio diria não, afinal era sexta-feira.
Então seguiram para o restaurante mais caro da cidade. Otávio pensou: "Pelo menos isso". Chegando lá o chefe começou a indagar Otávio sobre o motivo de estar tão quieto. Disse ao novo acionista que Otávio era o cara, o mais irreverente, mas que devia estar muito cansado, pois tinham tido uma semana de muito trabalho. Mentira, Otávio era o cara mais sem graça daquela empresa. Uns até achavam que ele era um banana, um nerd. Então o pior aconteceu.
- Vou contar uma piada que o Otávio aqui contou semana passada. _ disse o chefe.
Mais uma mentira. E Otávio pensou, lá vem uma sem graça. Mas para sua surpresa o maldito do chefe tinha uma boa para contar. Otávio não conseguiu se segurar e soltou uma gargalhada mostrando todos os seus dentes para o acionista. O homem assustado com o que via escrito nos dentes de Otávio, e não era para menos, se engasgou com o escargot e foi parar no hospital. O chefe inconformado não parava de berrar:
- Seu idiota. Eu sabia que você era um idiota, mas escrever 'Eu te amo' nos dentes e vir para essa reunião, isso já é demais. Você quer me arruinar?
Que forma maravilhosa de acabar uma noite. O acionista no hospital, o chefe inconformado e Otávio sem emprego e com a surpresa estragada, pois quando chegou na casa de Margarida, ela já estava dormindo. E como se já não bastasse a humilhação, não conseguiu nem aparecer no escritório para pegar suas coisas, pois o comentário de que ele queria mesmo era conquistar o novo acionista, era geral. Mas pelo menos dormiu nos braços da amada. Sim, essa é a parte boa, porque quando ela acordou e viu os dentes azuis de Otávio saiu correndo, se trancou no banheiro e pediu que ele fosse embora. "Mas querida. Eu acabo de perder meu emprego. Preciso de você". Dizia ele desesperado. Naquela hora ela abriu a porta do banheiro. E a Margarida, como nunca se tinha visto antes na história da biologia, ganhou espinhos. Ela saiu em direção ao armário, pegou tudo o que era de Otávio e jogou fora pela janela. Otávio saiu da casa de sua amada como um cachorro Chow Chow que ao invés da língua azul, tinha os dentes azuis. É. Podia ser pior, pensou ele. Foi quando no dia seguinte recebeu um convite do acionista da ex-empresa, para um jantar: a dois.
Sim. Podia ser pior. Podia ser contigo.
Depois do primeiro gole naquele copo de plástico da mais barata cerveja,
Baltazar, o garbo, comenta com seu parceiro de bar:
- amor próprio excessivo que leva o indivíduo a olhar unicamente para os seus interesses em detrimento dos alheios.
Melhor assim
- Hum...estou sentindo. Tire a calça pra eu enxergar melhor.
*****
Desafio
Senti o gosto amargo da cerveja, já saltando pelos meus poros, quando terminei de encher aquele copo. O copo já estava cheio, claro, mas pra mim isso não interessava. Queria me afogar dentro dos poucos centímetros daquele oceano dourado e espumante. Estava brindando minha primeira demissão. Contenção de despesas. E a despesa era eu. Num gole ironicamente dramático, levantei e fui em direção ao banheiro. As pessoas ao redor pareciam girar, as luzes ofuscavam meu pensamento e aquela escada com cinco degraus em frente à porta do banheiro me desafiava - como um gladiador, prestes a enfrentar um impiedoso leão. Fixei meu olhar no primeiro degrau. Avancei contra ele e mal consegui erguer o pé esquerdo. Meu rosto - e todo o resto - desabou contra a escada. Permaneci ali. Decidi não beber mais. Nem subir escadas. Precisava apenas me levantar. Como?
*****
Maldito amendoim
Maldita vergonha. Quis evitar aqueles olhos apoderando-se de meus sentidos. Virei a cabeça, suspirei e me fiz de normal. Normal? Com essa barriga apertando minha camisa de flanela xadrez? Com essa calça jeans desbotada e esta horrenda gagueira que toma conta de meu ser cada vez que ela se aproxima? Como um suíno, meu suor escorria pelo rosto, enquanto beliscava os amendoins gratuitos oferecidos aos clientes no balcão. “Talvez devesse nascer de novo”, pensei. Ela chamou o garçom. Pediu um drinque, fazendo beicinho. Me olhou fixamente. Fez sinal de que queria conversa. “Meu Deus, meu Deus! Fazer o que?”. Comecei a tossir por causa de um pedaço de amendoim entalado em minha garganta. Os malditos garçons me socorreram. “Talvez devessem me deixar morrer”, pensei. Em meio àquilo tudo, ela foi embora. Maldita vergonha. Maldito amendoim.
*****
Sentimental
Ele sempre fora sentimental demais. Chorava vendo cenas românticas de novelas mexicanas. Mas quando decidiu se desfazer da mulher, não deixou nenhum resquício de sentimentalismo interferir em sua decisão. Tomado pelo ódio da traição outrora descoberta, bateu com uma panela na cabeça de sua ex-amada. Ela revirou os olhos e caiu. Ele ficou parado, observando, com a panela em posição de ataque caso ainda houvesse um sopro de vida no corpo estatelado. Aproximou o olhar e percebeu que ela estava morta. Uma lágrima escorreu pelo seu rosto pálido. Era sinal do sentimentalismo que sempre o guiou. Arrependimento. Porém, tardio. Num ato desesperado colocou o corpo da mulher no freezer. Era uma forma de tê-la para sempre por perto. Ficou lá, velando o corpo gelado da amada e sofrendo. Assim foi encontrado pela polícia, dias depois.
Escrever.
Tic tac... mais meia hora.
Pelo menos me resta sorrir
PERVERSIDADES
Pensava sobre a primeira vez em que havia dito
um "não". Já fazia tempo: uns 3 meses. Avaliou
todo o ciclo de mudanças que passou a ocorrer
na sua vida a partir do momento em que ela decidiu
ser perversa. Na verdade, ela sempre havia gostado
do adjetivo, denotava uma certa sensualidade incomum,
além de uma sensação de poder inigualável. E
assim foi: num belo dia acordou perversa, sentindo o
mundo prostrado perante sua presença.
Resolveu usar cílios postiços e beber absinto todas as
manhãs.
MARIANA
E era tudo mentira. Mariana caiu do 38º andar das
suas certezas fundamentais. Ao aterrissar, se esparramou
toda em lágrimas pelo chão. Sentiu raiva e evaporou.
Espalhou-se toda em moléculas pelos ares, ares de Mariana.
Fez o vento voar forte tamanha
a sua idignação, e tentou fazer o mundo parar.
Mas o mundo não pára nunca.
Chorou novamente.
E lá estava Mariana escorrendo pela sarjeta, gota por
gota.
FRANCISCA
Francisca sabia: algo estava acontecendo. Sabia
que aquilo não era normal, porém não era capaz
de enxergar a laranja podre no meio da enxurrada
cotidiana. De qualquer forma, não conseguia se livrar
da expressão triste que pesava sobre seus olhos. Enquanto
se questionava e não chegava a lugar algum,
a sua vida seguia como sempre: poucos momentos
eufóricos abrilhantavam o beco gelado diário.
Não era bonita, mas tinha um certo charme. Tentava
dividir a sua angústia com pessoas próximas, mas
sentia que o fardo nunca diminuía, até que desistiu
de vez. Cada frustração, cada decepção, cada lágrima
que ardia, tudo era enterrado no meio do seu peito.
Optou por laçar pessoas desconhecidas, porém pessoas
desconhecidas não se dispõem a tomar um café
para ouvir cântaros. Então Francisca insinuava-se ao
extremo - era uma anêmona sedutora que pintava os
olhos tristes a ponto de transformá-los.
Francisca tinha uma dezena de casos com pessoas
que havia acabado de conhecer. Entrava no jogo do
desconhecido que viria a consumi-la. Consumir aquela
pequena de olhos que se revelavam suplicantes,
depois de liquefeita a maquiagem. Depois de cumprir
com a sua parte da negociação implícita no primeiro
"olá", ela abraçava o corpo ofegante que estava ao
seu lado e cochichava suas lástimas com um estranho
sorriso no rosto.
Francisca gostava do sexo estúpido e sem valor. Francisca
gostava de ser um ser humano pela metade. E,
era nessas horas, que Francisca gostava de ter olhos
tristes.
LUDMILA
O papel de parede extremamente florido e carregado
a fez sentir dentro de um sofá de 1960.
O cheiro de assepsia e os lençóis recém-trocados
davam uma atmosfera estranha ao lugar. Onde
se podia ligar o ar condicionado? Estava calor. Seu
nome? Ludmila, com "ele" de luxúria, lástima, leveza,
linda, lacônica, lacuna, lua, limpeza, leite, lágrima, levedo.
Bebeu. Bebeu muito para variar. Gole após gole ela se afundava. E, considerando-se impetuosa, com personalidade, decidida, arrotou alto: nenhum estranho estava ouvindo, ela era livre. No entanto se sentia mais perdida do que barata em dia de faxina. Queria poder ser uma homicida à la Sharon Stone em “Instinto Selvagem”, naquela noite queria mostrar uma face amarga; mas ela era a diabete em pessoa. Ao ouvir a palavra serial killer sempre a associava a Sucrilhos ou Aveia Quaker. Bebeu conhaque ouvindo “Me Deixas Louca”, era realmente uma tola. O namorado a fazia de gato e sapato, deveria demonstrar mais firmeza. Ele vivia dizendo que um dia terminaria tudo? Pois que terminasse de vez. Só por causa daquelas amáveis besteirinhas, isso é que dá ficar se relacionando com pessoas mal-resolvidas. Mania de limpeza, tudo certinho. Ela não agüentou vê-lo engraxar os sapatos com tanta perfeição: olhou para ele; rosto imberbe, cabelos bem repartidos. Olhou para o sapato; reluzia. Então cuspiu naquele marrom brilhoso e envernizado. A saliva escorreu dengosa, frouxa, esparramando-se pelo couro liso, e ela riu estuporadamente. Espetando como redondos alfinetes no ar, os olhos dele saltaram da cara, raivosa e perplexa. A namorada gargalhava mais e mais, não se conteve, e ainda o chamou de peixe. Logo em seguida, entusiasmada, disse que ele estava parecido com uma tainha caolha. Até que arrematou, de bom humor: “feinho meu!”. Ele não gostou nada daquele arrebatamento inoportuno, daquela vontade de brincar da moça, e fez o que faz sempre: foi direto para o banheiro, penteou o cabelo primeiramente, porque iria sair, depois retirou sua escova de dentes do espelho. “Aonde você vai?”, perguntou a namorada atrevida. Birrento, bicudo, chato, ele não respondeu naquela hora.
__ Ah, você não vai me levar a sério, né?! Foi só uma cuspidinha.
__ Alagou meu sapato, minha calça, encharcou minha meia, tudo! Por que fez isso, hein? Tá doida?!
__ Ai, é essa sua mania de limpeza que me irrita, pô! Luis, já tás até ficando com cara de cisco. Vem cá, meu feinho asséptico, vem.
__ Não, afasta essa língua esponjosa de perto de mim!
Foi então que eles começaram a trocar insultos. A briga sempre começava em tom arisco e patético, evoluindo para ataques, imprecações, vilipêndios lançados no coração do outro e até tapas bem estralados, para realçar o momento. Ele chamou-a de mosca sem asas, inútil. Ela chamou-o de pombo cagão. “Olha, que nojenta!”, Luis pensou, saliva nele e ainda desce o palavrório a esse calão. Chamou-a de nojenta. Então a mulher fez da boca um bico bem apertadinho, e, antes que ele adivinhasse o que era aquilo, ela cuspiu na cara dele. Ele pegou-a pelos cabelos, usou sua força. Mas ela era ainda mais forte e ousada, chutou em lugares táticos. Ele largou a namorada, e logo quando o mundo voltou a seus pés, correu atrás dela pela casa. Engalfinharam-se, avançaram-se, estragaram suas roupas e a cama ficou pequena para tanta brincadeira. A noite foi divertida.
Agora ela está bebendo, Elis quase chora no som que envolve o quarto e a namorada queria mesmo poder ser homicida em sua sedução, louca na sua forma de ir ao fundo e voltar respirando ainda mais forte. Bebe, pensando no que fará de diferente amanhã. Ele fuma ao seu lado, equilibrado na sua postura toda engomada, com um açucarado sorriso de chimia que dessorou. Inopinadamente, a moça arrota mais uma vez, exorcizando o álcool. Eram felizes.
Antes de escrever poesia
Antes de escrever poesia
Antes de escrever poesia
Antes de escrever poesia
Antes de escrever poesia
Antes de escrever poesia
Antes de escrever poesia
Antes de escrever poesia
Antes de escrever poesia
Antes de escrever poesia
Antes de escrever poesia
Acordei com o seu Gomes, treinador do time, batendo na porta. Abri o olho e vi o Paulão, o nosso quarto zagueiro que era evangélico, sentado na cama e com a bíblia na mão. Não sei como ele conseguia ficar o dia todo lendo. O máximo que eu lia era legenda de filme no cinema, isso porque achava que filme dublado era coisa pra criança. Sempre que dava eu dividia o quarto com ele. Era um cara tranqüilo, um mulato alto de bigode ralo. Tinha os dois joelhos fodidos e sustentava a família de oito irmãos no nordeste. Não sei por que esse pessoal tem tanto filho. A minha cabeça tava zumbindo.
Almocei pouco, mas bebi água igual a um camelo. E o seu Gomes, lá na mesa da comissão técnica, não parava de me encarar. O puto tava doido pra me barrar do time, mas sabia que precisava de mim. Ainda mais pra partida daquela tarde.
Fui pra sala de jogos depois do almoço mas não consegui jogar uma partidinha de pingue-pongue. Minha mulher não parava de ligar. Não sei como ela conseguia gastar tanto dinheiro. Bolsas, sapatos e cartão de crédito: era só nisso que ela pensava.
Fomos pro ônibus e o pagode começou a rolar. Graças à santa aspirina dos bebuns necessitados, minha cabeça não doía mais. No estádio, o ônibus foi cercado pela torcida. Uns queriam fotos, outros autógrafos e outras um amasso.
A preleção foi um saco, como sempre. Jogador quer entrar em campo, e não ficar ouvindo palestra e esquema tático.
A bola mal tinha começado a rolar e eu já tava morto, andando de um lado para o outro. Enquanto isso, o time deles voava em campo. O cara que tava me marcando era do tipo leão-de-chácara, sem pescoço. Eu já tava ficando de saco cheio com aquele brucutu me perseguindo. E o pior de tudo é que o filho da puta tava com sorte, tava levando a melhor em todas as jogadas.
No intervalo, seu Gomes, aos berros e falando tão perto do meu rosto, que pude sentir seu bafo azedo, perguntou quando eu ia começar a jogar. Porra, quem ele pensa que é? Afinal de contas eu sou o craque do time, e o cara que tava me marcando era um carrapato de primeira.
O segundo tempo foi se desenrolando e nada do nosso time fazer o gol. Pior do que isso, tomamos dois. A torcida começou a xingar, e nos chamar de mercenários. Matei a bola no peito e a vaia foi sonora. Meu Deus, o jogo não acabava nunca. Tentei dar uma de migué, caindo no chão e colocando a mão na coxa, mas pude ver a cara de satisfação do seu Gomes quando disse que não ia me tirar. O negócio foi esperar até o apito do juiz. Saí correndo, mas fui bloqueado por um pelotão de jornalistas. Essa turma é pior do que urubu na carniça. Veio um monte de pergunta, mas a minha única vontade era de socar a cara de um por um. Nisso vejo o Paulão chorando num canto. Pronto, tava aí a minha resposta.
- Bem, nós tentamos, demos o máximo. Mas hoje, Deus quis que a outra equipe saísse vencedora.
O vestiário tava um inferno. Era jornalista querendo entrar. A torcida que nos recepcionou antes da partida apedrejando as janelas. Gente chorando e o Paulão lendo a sua bíblia. E naquele momento eu só pensava numa coisa: como ia sair dali e encontrar aquele uísque que estava lá em casa me esperando.
Métrica
Palíndromos
Nós 4
Sotão
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